Autônoma desde abril, a instrutora Cleu entra no veículo que mandou adaptar para dar aula (Foto: Osmar Veiga)
Mato Grosso do Sul tem atualmente 74 instrutores de trânsito autônomos ensinando alunos a dirigir e pilotar sem vínculo com autoescola. Segundo dados do Detran (Departamento Estadual de Trânsito), o número era de 34 há cerca de dois meses, o que significa que mais do que dobrou em pouco tempo.
Mato Grosso do Sul registrou crescimento no número de instrutores de trânsito autônomos, que passou de 34 para 74 em dois meses, após autoescolas perderem a exclusividade de oferecer aulas práticas para a CNH em março de 2025. Os profissionais relatam otimismo com a alta procura e valorizam a flexibilidade de horários e a negociação direta com alunos. Para atuar, é necessário ter mais de 21 anos, ensino médio completo e curso de Formação de Instrutores de Trânsito.
Os relatos dos independentes são de “otimismo” com esse novo mercado, aberto desde março deste ano. Naquele mês, as autoescolas perderam a exclusividade de oferecer aulas de direção que contam como obrigatórias para tirar a CNH (Carteira Nacional de Habilitação), por decisão do Contran (Conselho Nacional de Trânsito). A medida acompanha uma série de mudanças que pretendem facilitar o acesso à primeira habilitação.
“Eu vejo esses profissionais bastante otimistas no mercado de trabalho. Eles comentam que estão se surpreendendo com a procura de candidatos à habilitação”, afirma Noemia Rodrigues, gerente de Controle de Credenciamento de Habilitação e Condutores, setor que também é responsável pelo credenciamento de instrutores.
A flexibilidade no trabalho e a possibilidade de negociar diretamente com o aluno são as vantagens que eles mais destacam. “Estão sentindo mais liberdade para trabalhar dentro dos horários que eles escolhem, têm mais contato com os candidatos. O que eu ouço é que estão buscando isso mesmo”, continua a gerente.
Para aqueles que não querem largar o contrato pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), é permitido ser instrutor de autoescola e instrutor independente ao mesmo tempo. Noemia explica que as taxas são únicas para exercer a profissão das duas formas, o que vai mudar é a necessidade de fazer vistoria a cada seis meses no veículo próprio ou locado para o ensino como autônomo.
Impulso - Instrutor autônomo em Bonito desde o fim de março, Mario Augusto de Souza, 45, dá aulas de carro desde 1999. Também trabalhou em autoescolas de Guia Lopes da Laguna, Jardim e Bela Vista. Parou em 2022.
“Desanimei e comecei a atender só de forma particular quem precisava de aulas extras e quem já era habilitado, mas tinha medo de pegar o carro”, conta. Ele também passou num concurso público e abriu uma empresa de higienização de estofados no período. Dava para conciliar.
Este ano, ele tentou alugar o carro de uma autoescola para ensinar a sobrinha a dirigir após duas reprovações na prova prática. A negativa recebida virou um impulso.
“Tenho até que agradecer, porque eles negaram e aí fui atrás de comprar o meu próprio para ajudar a minha sobrinha e começar a trabalhar como autônomo. Mandei caracterizar, colocar placa especial e adaptar com os comandos no lado do passageiro, tudo o que pede o Detran”, comentou.
O veículo que ele comprou é do modelo Fiat/Mobi. As mudanças necessárias no carro ficaram em torno de R$ 4,8 mil.
Mario, conhecido como “Gutão” em Bonito, fala que o investimento está dando um ótimo retorno. A agenda está lotada e alunos estão reservando horários com ele antes mesmo de chegarem à etapa em que podem fazer as aulas práticas.
Ele afirma que ganhou a liberdade de escolher os horários e ter mais folgas, mas até trabalha no domingo, quando é vantajoso. "Tem gente que só vem para a cidade nesse dia. Eu atendo, mas cobro o dobro", relata.
O maior ganho, para ele, está sendo o financeiro. “Nós, instrutores, nunca tivemos preguiça de trabalhar. A gente não gosta de ganhar pouco. É uma área pouco valorizada”, desabafa.
Na Capital - Cleuma Silva Alegre, 45 anos, começou a investir no carro que usaria para dar aula em abril deste ano. Em maio, já estava trabalhando em Campo Grande, que concentra a maioria dos instrutores autônomos já credenciados.
Chamada de Cleu pelos alunos, ela chegou a ser diretora de ensino de uma escola no interior do Estado e a dar aulas teóricas. Conheceu todas as funções desde que começou a trabalhar no ramo, em 2014. Decidiu mudar-se para Campo Grande após a pandemia de covid-19, que deixou as coisas mais difíceis para o setor.
Insatisfeita com o salário como funcionária, ela decidiu pagar para adaptar o carro próprio, um Fiat/Cronos. “Vi a oportunidade de trabalhar para mim mesma, ser dona do meu negócio e me desenvolver”, falou.
Com as novas regras do processo de habilitação, ela avalia que há mais candidatos. Assim, a procura aumentou e abriu espaço para os autônomos entrarem no mercado que as autoescolas ainda dominam em Mato Grosso do Sul.
Para ela, a troca também foi mais vantajosa. Para os alunos, agora há mais opções, na visão dela. "Consigo oferecer um horário noturno de aula para aqueles que trabalham o dia todo", diz.
Como trabalhar na área?
Noemia Rodrigues explica que o primeiro passo para quem quer ser um instrutor autônomo é saber se atende aos seguintes critérios:
Os documentos necessários para credenciamento, os mesmos exigidos para trabalhar como instrutor de autoescola, são:
Eles podem ser entregues pessoalmente no bloco 5 da sede do Detran em Campo Grande e em agências de trânsito, no caso do interior. Não é preciso agendar. Outra opção é enviá-los por e-mail para [email protected].
O primeiro registro terá a cobrança da taxa de R$ 193,36. Quem já é instrutor em autoescola não precisará fazer novo credenciamento nem pagar novamente a taxa de primeiro registro. Nesse caso, a exigência é emitir a credencial de instrutor autônomo junto ao Detran, que hoje custa R$ 56,57. O valor do primeiro registro foi informado com base na tabela de julho, enquanto o da credencial já considera a atualização de agosto.
Instrutores autônomos só podem atuar nas categorias A (motocicleta) e B (veículo de passeio). Quanto ao carro utilizado, ele pode ser manual ou automático, e não precisa ser próprio. Se for locado, é registrado como "veículo eventual". A vistoria não é dispensada em nenhuma situação. Até julho deste ano, o valor cobrado pela avaliação era de R$ 235,74. Segundo a gerente, é uma taxa anual que cobre duas vistorias, realizadas com intervalo de seis meses.
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