O novo pacote tarifário anunciado pelo governo dos Estados Unidos pode atingir diretamente um dos segmentos que mais crescem em Mato Grosso do Sul: a produção de etanol de milho. A proposta do presidente Donald Trump prevê sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros e reacende tensões comerciais entre os dois países, colocando em risco investimentos e planos de expansão do setor.
A medida foi anunciada na segunda-feira (1º) após investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que acusa o Brasil de adotar práticas consideradas prejudiciais ao comércio norte-americano. Entre os pontos levantados está justamente a política brasileira para o etanol importado. Atualmente, o Brasil aplica tarifa de 18% sobre o etanol vindo dos EUA, enquanto o combustível brasileiro entra no mercado americano com taxa de 2,5%.
O tema já havia sido tratado em encontro entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva em maio, quando foi criado um grupo bilateral para discutir soluções. Apesar disso, o processo segue avançando e as primeiras medidas podem começar a ser aplicadas a partir de 15 de julho, caso não haja acordo.
O possível impacto preocupa porque Mato Grosso do Sul se consolidou como um dos principais polos nacionais do etanol de milho. Nos últimos meses, o Estado anunciou novos investimentos milionários e expansão industrial voltada ao biocombustível.
Em maio, a Atvos confirmou a implantação de sua primeira planta de processamento de grãos em Nova Alvorada do Sul, ampliando a operação da Usina Santa Luzia, com conclusão prevista até 2028. Antes disso, em março, Jaraguari recebeu anúncio de uma nova usina com investimento estimado em R$ 300 milhões, capacidade para processar 500 toneladas de milho ou sorgo por dia e produzir até 200 mil metros cúbicos de etanol anualmente.
O Estado também concentra operações estratégicas da Inpasa, considerada a maior produtora de etanol da América Latina, com unidades em Dourados e Sidrolândia, além das operações da Neomille/CerradinhoBio em Maracaju e Chapadão do Sul.
Especialistas apontam que o avanço brasileiro no setor pode estar no centro do conflito comercial. Conforme avaliação publicada pela Sociedade Rural Brasileira, a rápida expansão da capacidade industrial em estados como Mato Grosso do Sul transformou o país em competidor direto dos norte-americanos no mercado global de biocombustíveis.
Além do etanol, a investigação dos EUA cita outros pontos de atrito, como políticas relacionadas ao Pix, comércio digital, propriedade intelectual, acordos tarifários firmados pelo Brasil e questões ambientais. Apesar disso, o processo ainda está em fase preliminar e passará por audiências públicas antes da decisão final do governo norte-americano.
Enquanto as negociações seguem, o setor produtivo sul-mato-grossense acompanha o tema com atenção, diante do risco de que uma disputa comercial internacional afete justamente uma das cadeias que mais atraem investimentos e ampliam a industrialização do Estado.

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