Estacionamento de um condomínio vertical de em Campo Grande, próximo ao Lago do Amor (Foto: Maya Severino)
Morar em condomínio virou sinônimo de portaria, câmera e sensação de segurança, mas a paz prometida no anúncio costuma dividir espaço com barulho, pets soltos, vaga ocupada por vizinho e discussões que começam no grupo de WhatsApp e, às vezes, terminam em ocorrência policial. Em Campo Grande, moradores ouvidos pelo Campo Grande News dizem que a proteção ainda pesa na escolha, mas a convivência diária cobra seu preço.
No Village Parati, na Rua da Divisão, considerado um dos maiores condomínios de casas térreas da América Latina, com 2.256 residências e população estimada entre 6 mil e 8 mil moradores, as reclamações passam por poeira, barulho, animais, crianças, motos e regras que nem sempre são cumpridas. O tamanho do lugar ajuda a explicar a variedade de problemas. É praticamente uma cidade murada, só que com síndico.
O aposentado Isaías José de Medeiros, de 48 anos, mora no condomínio e diz que, apesar dos problemas, ainda vê vantagem na escolha. Para ele, a segurança é o principal motivo para continuar vivendo no local. “Com questão de segurança, de você fazer uma viagem, deixar a casa. Para você chegar tarde da noite, se você precisar. Então condomínio é uma opção”, afirma.
Ele reconhece que há reclamações entre os moradores, principalmente sobre vizinhos barulhentos e festas, mas diz que, pessoalmente, não enfrentou os piores conflitos. “Eu sei que tem vizinho que é barulhento, que é problemático. Até agora, graças a Deus, eu não me deparei com essa qualidade de vizinho”, conta. Mesmo assim, avalia que “tem coisa que pode melhorar, e melhorar muito”.
A principal queixa de Isaías é externa, mas atinge diretamente a rotina dentro do residencial. Ele reclama da poeira provocada por ruas de terra próximas ao condomínio. Segundo o morador, casas e carros amanhecem cobertos de pó. “O que eu acho que falta nesse condomínio, pelo fato de a gente pagar a IPTU, é essa estrada aqui. É muita poeira”, diz.
Já o motorista Jair Santana, de 50 anos, mora há cerca de dez anos no mesmo condomínio e resume o problema de forma direta: regra existe, mas nem sempre é respeitada. “O condomínio tem regras, mas ninguém cumpre a regra do condomínio, para falar a verdade”, afirma.
Entre as reclamações dele estão animais soltos, donos que não respeitam áreas comuns, entregadores em motos barulhentas, crianças brincando em frente às casas e vizinhos que fazem barulho de madrugada. Jair diz que não é contra pets nem crianças, mas cobra limites. “Eu vim para cá para ter tranquilidade. Só que tem muitas coisas que eles colocam regra e a regra não é cumprida”, relata.
O motorista também cita situações de barulho fora de hora. Segundo ele, uma moradora vizinha discutia dentro de casa por volta das 4h da madrugada, atrapalhando o descanso de quem estava próximo. Para Jair, o problema não está na existência das normas, mas na falta de aplicação igual para todos. “Se for, tem que ser para todos, não só para um”, diz.
Em outro residencial, no Bairro Rita Vieira, um morador de 35 anos, que pediu para não ser identificado, vive desde 2017 em um condomínio com 192 apartamentos, dividido em blocos. A população estimada é de 500 a 600 pessoas. Segundo ele, a principal reclamação é o barulho dentro dos apartamentos, especialmente fora do horário permitido para reformas.
No local, as obras podem ocorrer durante a semana até 17h30 e, aos sábados, até 11h30. Domingos e feriados são proibidos. Mesmo assim, ele relata problemas com “bateção” fora de hora, festas, conversas altas, crianças no parquinho em horários de descanso e até ar-condicionado barulhento. “Aparentemente, você olha de fora e vê tudo normal. Não é”, afirma.
A lista de incômodos inclui ainda pets circulando fora dos espaços adequados, tutores que não recolhem sujeira dos animais, gatos soltos subindo em carros ou entrando em apartamentos, moradores estacionando em vagas de vizinhos e conflitos domésticos que acabam mobilizando a polícia. Segundo o morador, o condomínio instalou câmeras em várias áreas e as multas ficaram mais frequentes. “A multa anda correndo solta”, resume.
Apesar das reclamações, ele demonstra certo entendimento sobre a dificuldade da gestão. “Tenho dó do síndico. Não deve ser fácil”, diz. Ainda assim, afirma que está perto de desistir da vida em condomínio. “Hoje, estou quase mudando e indo para uma casa. Só descobre esses problemas quando pegamos as chaves”, afirma.
Para o advogado Alex Garcez, especialista em direito condominial, os conflitos mais comuns seguem concentrados no barulho, mas ganharam novas camadas com a vida digital, o aumento do trabalho em casa, a presença de pets e a disputa por vagas de garagem. “Os barulhos são a maior parte da reclamação, seja festa ou latido dos pets. Com o avanço do digital, muitas pessoas trabalham de casa e acabam sendo atrapalhadas”, explica ao Campo Grande News.
Segundo ele, festas fora do horário permitido e som alto continuam entre os clássicos da convivência difícil. Mas os animais também passaram a ocupar lugar de destaque nas reclamações. As queixas envolvem quantidade de pets, circulação em áreas comuns, animais sem guia e falta de higiene por parte de tutores que não recolhem os dejetos.
Outro foco de atrito está nas garagens. Alex lembra que, em Mato Grosso do Sul, é comum o uso de caminhonetes, mas muitas vagas foram projetadas para veículos menores. Isso gera problemas quando o carro passa do limite, atrapalha a circulação ou invade a área de outro morador. Também há casos de condôminos com mais veículos do que vagas privativas, que acabam usando espaços de visitantes sem autorização.
Já os grupos de WhatsApp, segundo o advogado, viraram uma espécie de assembleia paralela, geralmente mais barulhenta e menos produtiva. “O digital, como grupo de WhatsApp, tirou o filtro de algumas pessoas. Por estarem seguras atrás da tela, acreditam que podem falar o que querem, pensam ainda que a internet é terra sem lei”, afirma. Ele diz que acusações e ofensas nesses espaços já têm virado ocorrência policial.
A orientação do especialista é que grupos de moradores não sejam tratados como canais oficiais do condomínio, principalmente quando não são administrados pela gestão. Para ele, o síndico deve manter um canal formal de comunicação, como e-mail, número exclusivo ou aplicativo escolhido pela administração. O grupo de vizinhos pode existir, mas não deve substituir os meios oficiais.
Além dos conflitos tradicionais, uma novidade começa a aparecer: carros elétricos. Segundo Garcez, muitos condomínios não têm estrutura física nem capacidade energética para instalação de pontos de recarga, o que tem gerado disputa entre moradores e administração. O problema surge quando o condômino entende que o condomínio deve permitir a instalação “de qualquer forma”, mesmo sem adequação técnica.
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