A presença policial nas ruas é essencial para garantir a segurança da população, mas a confiança da sociedade depende de uma atuação pautada pelo respeito à lei e aos direitos do cidadão.
A polícia é uma das instituições mais importantes de qualquer democracia. Sem ela, a sociedade fica refém da violência, do crime organizado e da insegurança. A imensa maioria dos policiais sai de casa diariamente para proteger a população, muitas vezes colocando a própria vida em risco. Justamente por isso, quando surgem indícios de abuso de autoridade, a resposta não pode ser o silêncio. É preciso investigar com rapidez, transparência e rigor.
Recentemente, dois episódios voltaram a levantar esse debate em Mato Grosso do Sul. Em um deles, um garoto que caminhava para comprar pão foi abordado e agredido com um tapa no rosto. Em outro, um jovem negro, parado em frente à própria casa, também teria sido agredido durante uma abordagem. Não havia notícia de crime, denúncia ou qualquer elemento conhecido que justificasse a violência.
O mais preocupante é que nenhuma das vítimas procurou a polícia para registrar ocorrência. E esse silêncio diz muito. Em muitos casos, pessoas que se sentem vítimas de abuso simplesmente desistem de denunciar por medo de represálias ou por acreditarem que nada acontecerá. Quando o cidadão deixa de recorrer justamente à instituição que deveria protegê-lo, instala-se uma perigosa crise de confiança.
Isso não significa que toda denúncia seja verdadeira nem que todo policial esteja errado. Pelo contrário. Toda acusação precisa ser apurada com seriedade, garantindo o direito de defesa dos agentes e a busca pela verdade. Mas também não se pode permitir que o receio das vítimas impeça a apuração de fatos que podem revelar desvios de conduta.
Os abusos, porém, nem sempre aparecem em grandes operações. Muitas vezes se manifestam em atitudes aparentemente pequenas, mas igualmente incompatíveis com a função pública.
Um exemplo frequentemente relatado por comerciantes é o consumo de alimentos e bebidas por policiais em bares e restaurantes sem o devido pagamento, sob a justificativa implícita de que a presença da viatura ou dos agentes representa uma forma de segurança para o estabelecimento.
Outro comportamento que se tornou comum é o uso indevido de sirenes e dispositivos luminosos apenas para escapar de congestionamentos ou ganhar prioridade no trânsito, sem que exista qualquer ocorrência de emergência. Equipamentos destinados a salvar vidas e reduzir o tempo de resposta em situações críticas não podem ser transformados em instrumentos de conveniência pessoal. Quando isso acontece, um recurso público perde sua finalidade e a autoridade passa a servir ao interesse individual, e não ao interesse coletivo.
A segurança pública não é um favor prestado ao cidadão nem ao comerciante. É um serviço pago por toda a sociedade por meio dos impostos. O policial recebe exatamente para proteger pessoas e patrimônios. Não pode transformar essa obrigação em moeda de troca nem utilizar as prerrogativas da função para obter vantagens particulares.
A credibilidade de uma corporação não depende apenas das apreensões realizadas ou dos criminosos presos. Ela se constrói diariamente na conduta de seus integrantes. Cada abordagem respeitosa fortalece a confiança da população. Cada abuso, por menor que pareça, produz o efeito contrário.
Também é importante evitar generalizações. Seria profundamente injusto atribuir essas práticas à maioria dos policiais, que trabalha com dedicação e honestidade. Justamente por respeito a esses profissionais é que os desvios precisam ser identificados e punidos. Quem usa a farda para intimidar cidadãos, obter benefícios pessoais ou desrespeitar a lei não compromete apenas sua própria imagem. Compromete a reputação de toda a instituição.
Uma polícia forte não é aquela que está acima da lei. É aquela que faz da lei o seu maior compromisso. A autoridade nasce da confiança da sociedade, não do medo. Sempre que um agente público utiliza o poder que recebeu para servir a interesses particulares ou humilhar quem deveria proteger, enfraquece a própria instituição que jurou defender.
A população espera policiais preparados, respeitados e valorizados. Mas espera, com a mesma firmeza, que aqueles que eventualmente abusem da autoridade respondam por seus atos. É essa diferença que separa uma corporação admirada de uma corporação temida. E uma sociedade democrática precisa da primeira, nunca da segunda.
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